O poderoso chefão

ELE AINDA MANDA EM MINISTRO, SENADOR…

Há muitas histórias em torno das atividades do ex-ministro José Dirceu. VEJA revela a verdade sobre uma delas: mesmo com os direitos políticos cassados, sob ameaça de ir para a cadeia por corrupção, o chefe da quadrilha do mensalão continua o todo-poderoso comandante do PT.
Dirceu é um homem de negócios, mas continua a ser o homem do partido. O “ministro”, como ainda é tratado em tons solene pelos correligionários, mantém um “gabinete” num hotel de Brasília, onde despacha com senadores, deputados, o presidente da maior empresa estatal do país e até ministro de estado – reuniões que
acontecem em horário de expediente, como se ali fosse uma repartição pública. E agora com um ingrediente ainda mais complicador: ele usa o poder e toda a influência que ainda detém no PT para conspirar contra o governo Dilma – e a presidente sabe disso.

O que leva personagens importantes e respeitá­veis, como os que apa­recem nas imagens que ilustram esta reporta­gem, a deixar seu local de trabalho para se reunir em um quarto de hotel com o homem acusado de che­fiar uma quadrilha responsável pelo maior esquema de corrupção da história do Brasil?

Alguns deles apresentam seus motivos: amizade, articulações políticas, análise econômica, às vezes até o simples acaso. Há quem nem sequer se lembre do encontro. Outros preferem não explicar. Depois de viver na clandestinidade durante parte do regime militar, o ex-ministro José Dirceu se tornou habitué dos holofotes com a redemocratização do país. Foi fundador e presidente do PT, elegeu-se três vezes deputado federal e comandou a estratégia que resultou na eleição de Lula para a Presidência da República. Como recompensa, foi alça­do ao posto de ministro-chefe da Casa Civil. Foi um período de ouro para ele. Dirceu comandava articulações no Con­gresso, negociava indicações de minis­tros para tribunais superiores, decidia o preenchimento de cargos e influenciava os mais apetitosos nacos da administra­ção federal, como estatais, bancos pú­blicos e fundos de pensão. Dirceu se jactava da condição de “primeiro-mi­nistro” e alimentava o próprio mito de homem poderoso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sua glória durou até que ele fosse abatido pelo escândalo do mensalão, em 2005, quando se desco­briu que chefiava também um bando de vigaristas que assaltava os cofres públi­cos. Desde então, tudo em que Dirceu se envolve é sempre enevoado por sus­peitas. Oficialmente, ele ganha a vida como um bem-sucedido consultor de empresas instalado em São Paulo. Mas Um Brasília, na mais absoluta clandes­tinidade outra vez, que ele continua a exercer o seu principal talento.

CONSPIRATA

No governo Lula, o ex-ministro Antonio Palocci perdeu o cargo depois de quebrar o sigilo bancário de um caseiro que o acusava de frequentar uma casa de lobistas. No governo Dilma, foi demitido por não conseguir explicar a origem de sua fortuna obtida de forma meteórica. Dessa última vez, no entanto, o processo de fritura de Palocci contou com a ajuda de José Dirceu

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A 3 quilômetros do Palácio do Pla­nalto, Dirceu mostra que suas garras estão afiadas. Ainda é chamado de “mi­nistro”, mantém um concorrido gabine­te num quarto de hotel, tem carro à dis­posição, motorista, secretário e, mais impressionante, sua agenda está sempre recheada de audiências com próceres da República – ministros, senadores e deputados. José Dirceu não vai até as autoridades. As autoridades é que vão a José Dirceu. Essa inversão de papéis poderia se explicar por uma natural demonstração de respeito pelos tempos em que ele era do governo. Não é. E uma efetiva demonstração de que o chefão ainda é poderoso. Dirceu tenta recuperar o prestígio político que tinha no governo Lula, usando como arma os muitos aliados que ainda lhe beijam o rosto. Convoca-os como soldados, quando necessário, numa tentativa de pressionar a presidente Dilma a atender a suas demandas. Ou de torná-la refém por meio da pressão dos partidos. Esse trabalho de guerrilha – e, em alguns momentos, de evidente conspiração – chegou ao paroxismo durante a crise que resultou na queda de Antonio Palocci da Casa Civil.

Naquela ocasião, início de junho, Dirceu despachou diretamente de seu bunker instalado na área vip de um hotel cinco-estrelas de Brasí­lia, num andar onde o acesso é restrito a hóspedes e pessoas autorizadas. Foram 45 horas de reuniões que sacramentaram a derrocada de Antonio Palocci e durante as quais foi articulada uma frustrada tentativa do grupo do ex-ministro de ocupar os espaços que se abririam com a demissão. Articulação mi­nuciosamente monitorada pelo Palácio do Planalto, que já havia captado sinais de uma conspiração de Dirceu e de seu grupo para influir nos acontecimentos que ocorriam naquela semana – acontecimentos que, descobre-se agora, contavam com a participação de figuras do próprio governo.


Em 8 de junho, uma quarta-feira, Dirceu recebeu no hotel a visita do mi­nistro do Desenvolvimento, o petista Fernando Pimentel. Conversaram por 28 minutos. Sobre o quê? Pimentel diz não se lembrar da pauta nem de quem par­tiu a iniciativa do encontro. Admite, no entanto, falar com frequên­cia com o ex-ministro sobre o contexto brasileiro. É uma estranha aproxima­ção, mas que encontra ex­plicação na lógica que une e separa certos políticos de acordo com o interesse do momento. Próximo a Dil­ma desde quando era estudante, Pimentel defendeu, durante a campanha, a idéia de que a então candi­data do PT se afastasse ao máximo de Dirceu. Pimentel e Dirceu estavam em campos opostos. Naquela ocasião, o atual ministro do Desenvolvimento nu­tria o sonho de se tomar o futuro chefe da Casa Civil. Perdeu a chance depois de VEJA revelar que funcionários contratados por ele para trabalhar na campanha montaram um grupo de inteligência cujas tarefas envolviam, entre outras coisas, espionar e fabricar dossiês contra os adversários, principalmente o concorrente do PSDB à Presidência, José Serra. No novo governo, Pimentel foi preterido a Casa Civil em favor de Palocci. O mesmo Palocci que, no primeiro mandato de Lula, disputava com Dirceu o status de homem forte do governo e de candidato natural à Presidência da República. Um cacique petis­ta tenta explicar a união recente de Pimentel com José Dirceu: “No PT, é co­mum adversários num determinado instante se aliarem mais à frente para atingir um objetivo comum. Isso ocorre quando há uma conjunção de interesses”. Será que Pimentel queria se vingar de Palocci, a quem considerava um rival dentro do governo?

Dois dias antes, na segunda-feira, Dirceu esteve com José Sergio Ga­brielli, presidente da Petrobras. Ga­brielli enfrenta um processo de fritura desde o fim do governo Lula. A presi­dente Dilma não cultiva nenhuma sim­patia por ele. Palocci pretendia tirar Gabrielli do comando da estatal. Ga­brielli precisava – e precisa – do apoio, sobretudo do PT, para se manter no cargo. Dirceu é consultor de empre­sas do setor de petróleo e gás. Precisa manter-se bem informado no ramo para fazer dinheiro. É o famoso encontro da fome com a vontade de comer – ou conjunção de interesses. O presidente da Petrobrás, que trabalha no Rio de Janeiro, chegou à suíte ocupada pelo ex-ministro da Casa Civil, no 16° andar do hotel, ciceroneado por um ajudante de ordens. Permaneceu lá exatos trinta minutos. Ao sair, o presidente da Petro­bras, que chegou ao quarto de mãos va­zias, carregava alguns papéis consigo. Perguntado sobre a visita, Gabrielli li­mitou-se a desconversar: “Sou amigo dele há muito tempo, e não tenho que comentar isso com ninguém”. Naquela noite de segunda-feira, a demissão de Palocci já estava definida. O ministro não havia conseguido explicar a incrí­vel fortuna que acumulou em alguns meses prestando serviços de consultoria – a mesma atividade de Dirceu.

Na terça-feira, horas an­tes da demissão de Palocci, Dirceu recebeu para uma conversa de 54 minutos três senadores do PT: Delcídio Amaral, Walter Pinheiro e Lindbergh Farias. Esse últi­mo conta que foi ele quem pediu a audiência. Qual as­sunto? Falaram do furacão que assomava à porta da Casa Civil. “0 ministro Dirceu nunca falou um `ai’ contra o Palocci. Pelo con­trário, sempre tentou resol­ver a crise com a ajuda da nossa bancada”, garante Fa­rias. De fato, a bancada foi decisiva – mas para sepul­tar de vez a tentativa de Pa­locci de salvar a própria pe­le. Logo após o encontro com Dirceu, os três senado­res foram a uma reunião da bancada do PT e recusaram­se a assinar uma nota em defesa do então ministro­chefe da Casa Civil. Alega­ram que a proposta não ha­via sido combinada com o Planalto. Existiam outros motivos para a falta de entusiasmo: o trio também es­tava insatisfeito com Palocci. Delcídio reclamava do fato de não conseguir emplacar aliados em representações de órgãos federais em Mato Grosso do Sul, seu estado natal e berço político. “Num momento tenso como aquele, fui conversar com alguém que está sempre bem informado sobre os acontecimen­tos”, explicou Delcídio sobre o encon­tro com o poderoso chefão. Pinheiro estava contrariado com a demissão de um petista do comando da Polícia Ro­doviária Federal na Bahia. “0 encontro foi para fornecer material para que ele publicasse um artigo sobre o projeto de lei que trata da produção audiovisual no país”, disse ele. Lindbergh Farias, por seu turno, ainda digeria as tentati­vas fracassadas de ser recebido por Pa­locci. No fim da tarde de terça-feira, o ministro-chefe da Casa Civil entregou sua carta de demissão. E teve inicio a disputa pela sua sucessão.

Quando Gleisi Hoffmann já havia sido anunciada como substituta de Pa­locci, no mesmo dia 7 de junho, Dirceu recebeu o deputado petista Devanir Ri­beiro. Foram 25 minutos de conversa. Já era sabido que, no rastro da saída de Palocci, Luiz Sérgio, um aliado de Dir­ceu, deixaria o ministério das Relações Institucionais. Estava deflagrada a cam­panha para sucedê-lo – e Dirceu que­ria emplacar no cargo o deputado Cân­dido Vaccarezza, líder do governo na Câmara. Procurado por VEJA, Devanir, que é compadre do presidente ­Lula, negou que tivesse ido ao hotel conversar com Dirceu. Um lapso de memó­ria como deixa claro a ima­m nesta reportagem. “Faz muito tempo que eu não o vejo.” Na quarta-feira, 8 de junho, pela manhã, as articu­ações de Dirceu continua­m a pleno vapor. Ele rece­beu o próprio Vaccarezza. Durante 25 minutos, trata­ram, segundo o líder, do con­gresso do PT que será rea­lizado em setembro. “Con­verso com o Dirceu com reg­ularidade. Como o caso Palocci era palpitante, é possív­el que tenha sido aborda­do, mas não foi o tema cen­tral”, afirma o deputado – e, no início do governo Dilma, chegou a dar entrevistas como o futuro presi­dente da Câmara, mas aca­ubou convencido a desistir de disputar o cargo por ter per­dido apoio dentro do PT. A agenda do chefão não se limita aos companheiros de partido. Duas horas de­pois do encontro com Vacca­rezza, foi a vez de o senador peemede­bista Eduardo Braga adentrar o hotel. Segundo o parlamentar, ele e Dirceu se encontraram por obra do acaso, no lobby, uma coincidência. 0 senador conta que aproveitou a coincidência pa­ra auscultar os ânimos do PT sobre o projeto do novo Código Florestal: “Que­ria saber como o PT se posicionaria. Ninguém pode negar que a máquina partidária petista foi arquitetada e cons­truída pelo Dirceu. Ele respira o parti­do”. O PMDB também respira poder. Com o apoio de Dirceu, peemedebistas e petistas fecharam um acordo para pressionar o Planalto a indicar Vaccare­zza ao cargo de ministro de Relações Institucionais no lugar de Luiz Sérgio. A substituição nessa pasta foi realizada três dias depois da queda de Palocci. In­formada do plano de Dirceu, a presiden­te Dilma desmontou-o ao nomear para o cargo a ex-senadora Ideli Salvatti.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A presidente já havia sido advertida por assessores do perigo de delegar poderes a companheiros que or­bitam em tomo de Dirceu. Mas Dilma também conhece bem os caminhos da guerrilha política. Chamada de “minha camarada de armas” por ele quando lhe foi passado o co­mando da Casa Civil, em 2005, a presidente não perde de vista os passos do chefão. Como? Pedindo a algumas au­toridades que visitam Dirceu em Brasília informações sobre suas am­bições. “A Dilma e o PT, principalmen­te o PT afinado com o Dirceu, vivem uma relação de amor e ódio. Mas hoje você não pode imaginar um rompimen­to entre eles”, diz um interlocutor da confiança da presidente e do ex-minis­tro. E amanhã? Se Dilma se consolidar como uma presidente popular e, mais perigoso, um entrave a um novo manda­to de Lula, o tal rompimento entra no campo das possibilidades. “Nunca a turma do PT foi tão lulista como hoje. Imagine em 2014”, afirma um cardeal do partido. Ele é mais um, como Dir­ceu, insatisfeito com o fato de a legenda não ter conseguido, como previra o ex­ministro, impor-se à presidente da Re­pública. Dilma está resistindo bem. Uma faxina menos visível é a que ela está fazendo nos bancos públicos. Aos poucos, vem substituindo camaradas li­gados a Dirceu por gente de sua con­fiança. E o chefão não está nada conten­te com isso. Tanto que tem alimentado o noticiário com denúncias contra pes­soas muito próximas à presidente, na­quele tipo de patriotismo interessado que lhe é peculiar.

Procurado por VEJA, Dirceu não respondeu às perguntas que lhe foram feitas. A suíte reservada permanente­mente ao “ministro” custa 500 reais a diária. Para chegar de elevador, é preci­so ter um cartão de acesso especial.

NA RESIDÊNCIA

Dirceu passou três dias articulando com petistas, sem sucesso, nomes de sua preferência para a Casa Civil e para o Ministério de Relações Institucionais. Não conseguiu. A presidente Dilma escolheu Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti.

Ca­da quarto do andar recebe uma única cópia. Qualquer visita ao “ministro”, portanto, tem de ser conduzida ao an­dar. Esse trabalho de cicerone é feito por Alexandre Situas de Oliveira, um cabo da Aeronáutica, que foi assessor de Dirceu na Câmara dos Deputados até ele ter o mandato cassado. Hoje, o cicerone é empregado do escritório de advocacia Tessele & Madalena, que tem como um dos donos outro ex-as­sessor de Dirceu, o advogado Hélio Madalena. 0 advogado já foi flagrado uma vez de caso com a máfia – a rus­sa. Escutas feitas pela Polícia Federal mostraram que, na condição de asses­sor da Casa Civil, ele fazia lobby para conceder asilo político no Brasil ao magnata russo Boris Berezovski (ma­fioso acusado de corrupção e assassina­to).

Anotem alguns nomes cargos e dia do encontro: 

-Fernando Pimentel, Ministro da Indústria e Comércio (8/6);

 – José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras (6/6);

– Walter Pinheiro, senador (PT-BA) – (7/6);

 – Lindberg Farias, senador (PT-RJ) – (7/6);

– Delcídio Amaral, senador (PT-MS) – (7/6);

– Eduardo Braga, senador (PMDB-AM) – (8/6);

– Devanir Ribeiro, deputado (PT-SP) – (7/6);

– Candido Vaccarezza, líder do governo na Câmara (PT-SP)

– (8/6); – Eduardo Gomes, deputado (PSDB-TO)

– (8/6); – Eduardo Siqueira Campos, ex-senador (PSDB-TO) – (8/6)

E Madalena foi flagrado outra vez na semana passada. É o seu escritório que paga a fatura do “gabinete” de José Dirceu. Na última quinta-feira, depois de ser indagado sobre o caso, Madalena instou a segurança do hotel Naoum a procurar uma delegacia de polícia para acusar o repórter de VEJA de ter tenta­

do invadir o apartamento que seu escri­tório aluga e, gentilmente, cede como “ocupação residencial” a José Dirceu. 0 jornalista esteve mesmo no hotel, in­vestigando, tentando descobrir que atração é essa que um homem acusado de chefiar uma quadrilha de vigaristas ainda exerce sobre tantas autoridades. Tentando descobrir por que o nome de­le não consta na relação de hóspedes. Tentando descobrir por que uma em­presa de advocacia paga a fatura de sua misteriosa “residência” em Brasília. Enfim, tentando mostrar a verdade so­bre as atividades de um personagem que age sempre na sombra. E conse­guiu. Mas a máfia não perdoa.                ∎

Ô MADALENA…
O advogado Hélio Madalena, ex-assessor de Dirceu na Casa Civil, tem um escritório de advocacia que paga as despesas do ministro no hotel cinco-estrelas que ele usa como “gabinete” para receber as autoridades de Brasília.
Também disponibiliza carro, motorista e um assessor De acordo com um relatório da Polícia Federal, o advogado, quando trabalhava no governo, fez
lobby pela concessão de asilo a um mafioso russo acusado de corrupção e assassinato. O advogado diz que cede o apartamento no hotel para “residência” de José Dirceu.

…E A QUADRILHA DO MENSALÃO CONTINUA AGINDO…!


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